Quem voa em terminais congestionadas como as do Rio de Janeiro e São Paulo sabe da utilidade que pode ter um equipamento anticolisão a... Um T-CAS feito em casa pode salvar a sua vida

Quem voa em terminais congestionadas como as do Rio de Janeiro e São Paulo sabe da utilidade que pode ter um equipamento anticolisão a bordo da aeronave. Ainda que o sistema ADS-B esteja em estado larval no Brasil, muita aeronaves já estão equipadas com transponders que operam em modo Sierra. E isso  traz um sem-número de vantagens sobre os antiquados equipamentos que só operam em modo Charlie.

Não precisamos nos deter muito detalhadamente sobre as diferenças entre os dois sistemas. Para os iniciados, basta lembrar que os transponders convencionais são ligados apenas ao altímetro da aeronave. Assim, eles enviam informações apenas sobre a altitude ou nível em que a aeronave se encontra. Cabe aos radares primários fazer a detecção do tráfego e associar a informação sobre a altitude fornecida pelos radares secundários à posição obtida pelo radar primário.

Operando em modo Sierra, o sistema ADS-B, que está vinculado ao GPS da aeronave, envia o tempo todo informações sobre a posição, proa, velocidade, altitude e até o prefixo do avião para receptores em terra e no ar. Esses sinais eletromagnéticos, transmitidos na frequência de 1090 MHz, podem ser captados por receptores de rádio que custam uma fração infinitesimal do preço dos equipamentos de radar. Hoje, por menos de R$ 1 mil, qualquer nerd adolescente pode construir um receptor apto a decodificar esses sinais, plotando a informação do tráfego na tela de um tablet ou Smartphone em tempo real.

Isso funciona também dentro da nacele. As ondas eletromagnéticas emitidas pelos transponder em modo Sierra podem ser captadas por equipamentos receptores portáteis dentro da cabine que, sincronizados com um Ipad por wi-fi ou Bluetooth, avisam o piloto do tráfego e indicam manobras evasivas para evitar acidentes. Esses gadgests podem, literalmente, salvar a sua vida. E há aparelhos para todos os gostos e bolsos. Se não quiser gastar algumas centenas de dólares com um receptor comercial, você mesmo pode construir o seu em casa.

O que há no mercado

Praticamente todos os grandes fabricantes de equipamentos de navegação fornecem receptores portáteis de ADS-B. Como a pretensão deste post é a de apontar soluções de baixo custo, vamos simplesmente desprezar os modelos mais caros, certificados, fixos no painel das aeronaves. Eles podem custar milhares de dólares. E proprietários de aviões  mais modernos já os têm instalados.

Para quem não tem aeronave própria, como os alunos em formação, ou pilota aviões de terceiros, os P-CAS representam uma excelente alternativa. As marcas mais conhecidas são Garmin (dois modelos, um deles com detector de atitude), Dual e Stratus. Os preços variam de US$ 550 a 1.200 em sites dos Estados unidos.

Mas quem não quer desembolsar tanto dinheiro assim pode se aventurar a construir seu próprio P-CAS. Isso se tornou possível a partir do desenvolvimento da plataforma Raspberry. Trata-se de um autêntico computador do tamanho de um maço de cigarros cujo custo de aquisição fora do Brasil é de USD 35. Ele pode ser adquirido em sites como a Amazon ou E-Bay, mas também estã disponível no Mercado Livre com preços ao redor de 150 reais.

A despeito de seu tamanho minúsculo, o Raspberry Pi vem equipado com quatro portas USB, porta ethernet, wifi, blluetooth, memória RAM de 2 Mb, saída de vídeo HDMI e um slot para cartões de memória SD, que fazem as  vezes de HD desse interessante aparelho.

Sua principal característica é a plasticidade. Uma placa Raspberry pode se transformar em literalmetne qualquer coisa que se queira, desde que se agreguem a ele complementos de hardware e o software adequado. O hardware é conectado por meio das portas USB. E a conectividade a outros computadores se faz por meio de wifi ou bluetooth.

Como construir seu próprio P-CAS

Caso decida partir para a aventura de montar o equipamento, o primeiro passo é adquirir os componentes. O principal elemento, a placa Raspberry, pode ser comprada no Mercado Livre. Os preços estão por volta dos R$ 150,00.

 

Em seguida você deve buscar os receptores dos sinais ADS-B e FIS-B. Eles podem ser encontrados em maketplaces estrangeiros como a Amazon e o E-Bay. A Amazon tem um serviço de entregas internacionais expresso que funciona muito  bem. Os produtos chegam em três ou quatro dias. Impostos e frete são pagos no ato da encomenda pelo cartão de crédito.

Os dois rádio-receptores são dongles que devem ser conetados às portas USB do minicomputador Raspberry Pi3. Um deles decodifica sinais emitidos na frequência de 1090 MHz pelos transponders que operam no modo S. O outro recebe informações emitidas pelos radares meteorológicos e permite a plotagem da situação climática em tempo real. Esse serviço, infelizmente,  ainda não está disponível no Brasil.

Nos mesmo sites estrangeiros você vai encontrar uma placa de GPS para equipar seu P-CAS caseiro. Há dois modelos: um para ser montado dentro da caixa que abriga os demais componentes, por US$ 15, outro externo, com uma extensão de fio que permite um posicionamento da antena em espaços mais exíguos, por US$ 18. A escolha deve se pautar apenas pela conveniência do piloto, pelo espaço disponível na cabine e, mais importante de tudo, pela distância que o equipamento deve guardar da bússola para evitar interferência eletromagnética.

Caso você deseje incrementar seu P-CAS, pode também introduzir um sensor AHRS. Ele integra um acelerômetro e dois giroscópios e é capaz de transformar seu sistema anticolisão num autêntico EFIS. Como o equipamento não é homologado, deverá ser utilizado apenas como backup dos instrumentos do painel. Mas o custo do upgrade, US$ 15 nos EUA, recomenda. Afinal, segurança a bordo nunca é demais. E o EFIS portátil mais barato do mercado sai por cerca de US$ 1.100.

Agora você deve adquirir a caixa em que seu sistema será acomodado. Procure comprar um kit que já venha com dissipadores de calor para os circuitos integrados do Raspberry e com uma ventoinha para refrigerar o sistema. Ela é opcional, mas altamente recomendável por se tratar de um equipamento embarcado. Há várias opções na Amazon com preços a partir de US$ 14. Esteja atento para o fato de que algumas delas não têm espaço para o sensor AHRS (nos anúncios há o aviso “does not fit AHRS”).

Por fim, você também vai precisar de uma bateria como as que são usadas para carregar telefones celulares. Prefira modelos que tem ao menos 10.000 Ah de capacidade. E também de um cartão de memória SD, de preferência classe 10, que irá funcionar como uma espécie de SSD do seu P-CAS.

A montagem é muito simples e não requer mais de cinco minutos. Acomode e parafuse a placa Raspberry na caixa e plugue os dongles nos conectores USB. utilize ao fotografia ao lado para se orientar sobre a conexão correta do cabo da ventoinha. Caso tenha optado pela compra do sensor AHRS, a ventoinha deverá ser ligada nele. A montagem é intuitiva.

Onde  encontrar o software

O software que dará vida ao seu P-CAS se chama Stratux. Ele já vem acompanhado do sistema operacional do Raspberry e, uma vez instalado, seu equipamento estará pronto para ser utilizado. A versão mais atual do Stratux pode ser baixada do site do desenvolvedor.

A instalação vai depender do tipo de computador que você utiliza. O Stratux é baixado como uma imagem de disco. Para carregá-lo no cartão SD será necessário usar uma ferramenta específica. usuários do sistema operacional Windows devem baixar o programa  Win32DiskImager . Usuário de Mac devem usar o Pi Filler. Não há nenhuma dificuldade digna de nota na utilização de ambos os aplicativos. Uma vez instalados e acionados, eles identificam o cartão de memória, solicitam a localização do arquivo contendo a imagem do Stratux e montam a imagem no cartão SD.

A escolha do aplicativo

Assim que você terminar inserir o cartão  SD, ligar Raspberry e carregar o sistema uma rede wi-fi será criada pelo equipamento. VocÊ vai encontrá-la nas configurações de rede do seu tablet com o nome Stratux. Não há senha nem nome de login. Trata-se de uma rede aberta à qual você deve conectar o smartphone.

Feito isso, o primeiro passo para checar se tudo estão funcionando a contento é abrir o navegador e digitar o endereço 192.168.10.1. Você deve localizar o guia Menu no canto superior esquerdo da tela. Clique sobre ela e, em seguida, clique na opção “Traffic”. Você verá, feliz da vida, que aí já aparecem as primeiras informações sobre as aeronaves que sobrevoam a área onde você está localizado, como na tela abaixo ao lado (clique para ampliar).

Agora, a última etapa. Ela consiste na escolha do aplicativo correto para sincronizar com seu P-CAS Raspberry/Stratux. Graças á nossa condição secundária nos mercados globais, não haverá maiores problemas. Pilotos norte-americanos têm à disposição uma miríade de aplicativos para escolher. Mas para nõs, pilotos brasileiros, resta apenas um — o australiano AvPlan EFB, app gratuita que pode ser baixada na loja da Apple.

O que poderia ser uma mácula acaba sendo, inclusive, uma qualidade. O AvPlan é um excelente EFB (Maleta de Voo Eletrônica, em inglês). Ele tem todos os recursos prometidos por seus concorrentes e traz a vantagem adicional de ser gratuito para teste. O manual do aplicativo em inglês por ser baixado aqui.

Pronto, seu sistema está funcionando e já pode ser um grande auxiliar no comando do seu avião. Mas lembre-se: o equipamento não é homologado e não pode ser utilizado como referência primária para orientar vôos. Seja qual for a sua sua qualificação, tenha sempre em mente que você não pode ficar na dependência de um equipamento feito em casa, que está sujeito a muitas falhas.

Mas com juízo e ponderação, não fará mal algum ao comandante ter consigo algo que pode salvar sua vida — ainda mais se essa ferramenta valiosa for construída por uma fração do preço dos caríssimos equipamentos homologados para o mesmo fim.

 

 

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